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02 diciembre 2024

'Revolución': Más de lo mismo, pero mejor

Diego Gascón Marzal - Zero Grados - 03/12/2024

Reverte continúa con el género de la novela histórica, que tanto ha trabajado y que nos traslada esta vez a Ciudad de México en 1911, en plena revolución liderada por Emiliano Zapata y Francisco Villa. La misma revolución de la que, hace algo más de un siglo, nos hablaron figuras tan importantes del periodismo como John Reed, Nellie Bly o escritores como Mariano Azuela. El académico, con más de treinta novelas a sus espaldas, ha creado un sello propio que hace que sus obras sean reconocibles para cualquier lector. 'Revolución' no es la excepción. Estamos ante una historia en la que perfecciona ciertas ideas exploradas en sus últimas novelas, pero que quizás peque de falta de originalidad. 

Nos ponemos en la piel de Martín Garret Ortiz, un joven ingeniero de minas español que emigra a México para trabajar. Allí se verá envuelto en una historia que trata sobre la búsqueda de un tesoro, en mitad de una rebelión popular donde imperan la violencia, la brutalidad y la traición; pero donde también queda hueco para el coraje, la amistad o la audacia. A lo largo del camino que transcurre nuestro protagonista, la mujer tiene un papel de vital importancia. Conoceremos a tres personajes femeninos que influirán de diferentes maneras en el proceso de madurez al que se ve sometido el ingeniero de una manera forzosa. Garret es el reflejo de un joven Reverte, deseoso de vivir aventuras y en cuyo corazón, según sus propias palabras, “la novedad pesaba más que la prudencia”. Al más puro estilo Indiana Jones o como lo hacía Jim Hawkins en la novela de Robert Louis Stevenson. 

Aunque pertenece al género de novela histórica, el apartado histórico queda relegado a un segundo plano. La revolución mexicana sirve de marco para que se desarrolle una historia de aventuras clásica, simple en su construcción, pero que resulta muy entretenida. El protagonista se embarca en un viaje para encontrar unas monedas de oro y se termina por unir de manera fortuita a una rebelión popular. Sin embargo, en ningún momento ahonda ni se mete en profundidad en los motivos y causas de ésta. Se sirve del proceso revolucionario como una herramienta para que la trama avance.

El cuidadoso uso de la lengua, con todas sus variantes y sentencias populares, se ha convertido en un signo de la prosa del experimentado escritor. Consigue sacar el máximo provecho de cada palabra empleada en el relato, todo ello sin utilizar un lenguaje complicado que dificulte la lectura. En 'Revolución', Reverte nos muestra con gran precisión cómo era el castellano de la México de comienzos del siglo XX. A lo largo del texto encontramos numerosos refranes, expresiones y frases hechas que no hacen sino mejorar la muy cuidada ambientación, la cual se construye gracias al uso de la descripción de paisajes y lugares mexicanos representativos. 

Estamos ante unos personajes simples, que actúan de manera lineal. Garret se suma a una lista de protagonistas de las novelas de Arturo Pérez-Reverte que comparten los mismos rasgos. Es un joven entusiasta que carece de la experiencia que aportan los años, el cual se verá forzado a madurar en medio del ambiente hostil en el que se encuentra. Es la misma fórmula que ha utilizado en sus últimas obras y que, llegados a este punto, puede resultar algo repetitiva. Los personajes secundarios son interesantes a primera vista y están bien construidos, pero ninguno de ellos presenta algún conflicto que se desarrolle en profundidad. Más bien parece que sean personajes cuyo único objetivo sea ayudar a Garret en ese proceso de madurez. 

'Revolución' es una obra de una factura cuidada. Las últimas novelas de Reverte siguen una misma línea y, pese a que no estamos ante una excepción, es una obra que se disfruta y engancha de principio a fin. El habla mexicana de comienzos del siglo pasado incita al lector a trasladarse a la revolución liderada por Zapata y visitar desde Juárez a Ciudad de México. Un proceso de inmersión que te hace olvidar de una historia que ya quizás ya conozcas si has leído previamente al autor.

https://www.zgrados.com/resena-revolucion-reverte/

19 octubre 2024

“Perdemos a inocência que nos permitia sair à rua com vontade de mudar o mundo”

Entrevista de António Moura dos Santos - Sapo 24 - 19/08/2024

Em 'Revolução', o afamado escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte coloca o seu protagonista no México do início do século XX, no centro dos eventos que dão o nome a este romance. Pretexto então para uma conversa sobre a guerra, a condição humana e sobre as revoluções: porque falham, mas também porque é necessário continuar a fazê-las.

Num dia quente de maio em 1911, o engenheiro de minas Martín Garret vê-se de súbito no epicentro de uma luta que não é a sua, num país que o considera um gringo. Afinal de contas, é espanhol e só se encontra em Ciudad Juárez em trabalho, mas o rebuliço da Revolução Mexicana tem outros planos para si.

Em 'Revolução', Arturo Pérez-Reverte instituição das letras espanholas, um dos mais conhecidos e acarinhados romancistas do outro lado da fronteira por esse mundo volta ao romance histórico e, assim, a um dos seus cenários preferidos: o de colocar um certo tipo de heroi perante as engrenagens da história, combatendo adversidades que fizeram tantos tombar e que eternizaram aqueles poucos que as ultrapassaram.

Assim, o romancista de 72 anos mergulha no passado para falar no presente, como assume em entrevista ao 'Sapo 24' num hotel no centro de Lisboa. No decurso de uma extensa conversa, Pérez-Reverte defende que as revoluções estão sempre fadadas a falhar, porque “no fim são os homens, as mulheres, que as levam a cabo, e esse é o problema, na medida em que é o ser humano que estropia aquilo que ele próprio organiza”, transformando-as em “ditaduras e miséria”. “É assim a história da humanidade”, lamenta.

Apesar da beleza da Revolução do 25 de Abril, que recorda em mais do que uma ocasião ao longo da entrevista, o romancista aponta que o problema às vezes é que aqueles que fazem as revoluções são postergados pelos que querem recolher os frutos desse acontecimento. No entanto, Pérez-Reverte defende também que, mesmo que as revoluções falhem, o ser humano tem de continuar a tentar. “Não importa se falharmos mais tarde; o facto de os seres humanos sonharem em mudar o mundo, sonharem em pendurar o tirano no candeeiro da rua, cria momentos muito bonitos na história da humanidade e é necessário”, advoga.

Uma das marcas dos seus romances de aventura é a presença de um protagonista no cenário de um grande episódio histórico. Porque gosta tanto de atirar as suas personagens para as engrenagens da história?

Primeiro, porque é divertido. Um romance nos dias de hoje seria todo à base de telemóveis, de "hackers", de bens eletrónicos, de carros, etc... Mas se formos ao passado, há possibilidades narrativas muito mais interessantes. Por isso, prefiro mover-me nesses territórios. E depois há o facto de os meus romances serem falsamente históricos, os que são históricos. O que faço é falar do presente, mas uso o passado para compreendê-lo melhor. É assim que penso, que sem história é impossível compreender o presente. O problema grave que temos hoje, no Ocidente, na Europa, em Espanha, em Portugal, é que temos um presente conflituoso, mas falta-nos ter connosco um passado que nos permita compreendê-lo. Portanto, as pessoas estão perplexas porque não sabem. "Como é que isto é possível?". E, se lermos história, vemos que tudo já aconteceu, que há ciclos históricos que se repetem, há constantes históricas que nos permitem compreender, até impedir que coisas que vemos nelas se repitam. Mas como não temos essa formação intelectual ou cultural, estamos indefesos perante um mundo caótico e complexo. Quando falo da revolução no México, não é nela que estou a falar em concreto, é de como a revolução é traída, de como as pessoas que a fazem são postas de lado. Deixa-me dar-te um exemplo de Portugal: o herói português da Revolução de 25 de Abril foi o capitão Salgueiro Maia, que quando a fez disseram-lhe: "Pronto, agora adeus, vais-te embora e é a nossa vez, a dos políticos". Bem, esse é um caso clássico, ou seja, das pessoas que não arriscaram, que ficaram nas bancas a dizer: “Vai, vai, Salgueiro, vai, vai, vai, vai”.

Um pouco como Pancho Villa é descrito aqui também.

Sim, e o Salgueiro era um homem desses, tinha "cojones", ou, como vocês dizem, "tomates". Era um homem bom e honesto e por aí fora, mas depois foi posto de parte porque já não tinha interesse. Portanto, isso é uma constante, aconteceu no México, aconteceu na Revolução, em todas elas, por isso é que eu quis usar isso como argumento para este romance. As revoluções são sempre traídas.

Esta ideia do comum mortal perante um grande evento histórico não é também uma forma avaliar como é que nós, pessoas, reagimos à adversidade, aos grandes momentos?

Exatamente. Passei 21 anos como repórter a ir para países devastados pela guerra. Não gostava da guerra. Ninguém pode gostar do horror, da dor, fica connosco [aponta para a cabeça], não é? Mas na guerra há algo muito interessante, muito nutritivo do ponto de vista intelectual, que é observar o comportamento das pessoas nesse cenário. Aqui, onde estamos sentados, não é a mesma coisa; vivemos num mundo civilizado, rodeados de conforto e de boas maneiras, telemóveis, de expressões como “por favor, passe primeiro, minha senhora”, etc. Na guerra, não, tudo isso vai para o inferno. É aí que temos o ser humano na sua essência: comer, dormir, aquecer-se, fazer sexo. Ou seja, o ser humano na guerra mostra-se como realmente é. Portanto, para quem assiste é um espetáculo muito interessante. Aprendi muito na guerra, não exatamente por causa dela, mas pela forma como as pessoas se comportam. Portanto, o que me fascinou foi isso, eu passei essa minha aprendizagem, essa minha formação, ao Martín Garret. Por outras palavras, o que me aconteceu a mim acontece a ele. Ele descobre que a revolução, a guerra e a violência são uma escola muito importante de lucidez e maturidade.

Relativamente a esse tema, já referiu antes em relação a 'Revolução' que o protagonista Martin Garret não é uma transposição sua para a página, mas que o rumo de vida dele tem alguns paralelos com o seu. Em que sentido?

É um erro procurar o autor por detrás dos romances porque se trata de literatura. Primeiro, eu escrevo romances com o que li, o que vivi e o que imagino. Portanto, o que eu vivi está lá, obviamente, não é? Quando falo de violência, de tortura, de matar, ou de como é que se dá um combate, não me falaram disso, não vi isso no cinema, vivi-o. O que acontece é que eu transformo-o em literatura. Já não é meu, já faz parte da história narrativa que estou a contar. Portanto, uso a realidade, a minha biografia, mas modificada narrativamente.

Logo no início do livro, faz uma referência ao 'Flecha de Ouro', de Joseph Conrad, e já disse antes que este é um romance de iniciação.

Sim, é um "Bildungsroman".

Eu creio já ter lido uma declaração sua que é parecida com uma reflexão de Martin no livro, quando escreve "aqueles olhos, chegou a pensar ao vê-los no espelho, teriam necessitado de dez ou vinte anos de uma vida, ou talvez de uma vida inteira, para perceber o que tinham visto em menos de quarenta e oito horas”. Há esta ideia de que, estando colocado perante um cenário daqueles, uma guerra ou uma revolução, é uma espécie de abre-olhos para as facetas da vida que nos são ocultas.

Claro, é espreitar para um lado da vida que não vemos aqui, neste hotel. É conhecer melhor o ser humano e conhecermo-nos melhor nessa situação, na guerra. Mas é viver a guerra, não é encará-la do ponto de vista político, onde é tudo claro “República espanhola boa, Franco mau” ou “Israel mau, Palestina boa” isso é óbvio, não é? Mas quando nos aproximamos do indivíduo, das trincheiras, então as linhas tornam-se cinzentas, esbatidas. O bem e o mal são relativos, porque há fatores como o medo, a vingança, o ressentimento, a lealdade, que não têm nada a ver com ideologias, apenas com o ser humano. À medida que nos aproximamos do plano curto, digamos, a ideologia desaparece e o ser humano permanece. Portanto, mesmo com o malvado, aprendemos coisas muito interessantes. Eu estive em Angola em 1978 com a guerrilha da UNITA. Estava no mato e havia uma pequena aldeia com um hotel e uma garagem. Era um hotel sofrível, mas tinha eletricidade e cerveja gelada! No espaço ao lado, estava um mercenário português chamado Fernando que tinha estado a combater e tinha ficado lá com a UNITA. Era um tipo gordo e careca, muito simpático, muito engraçado, mas que estava a torturar um preto, um negro, um prisioneiro. Estava eu a beber cerveja e ouvia “tal e tal, ahhhhh”, ao lado. Passado um bocado apareceu o Fernando todo suado, de t-shirt, a pedir uma cerveja. Paguei-lhe duas e ele começou a dizer-me porque é que torturava, como é que as pessoas inteligentes se comportam na tortura, como é mais fácil torturar uma pessoa inteligente do que uma pessoa estúpida, como é que se tem de fazer para ela não morrer. Portanto, em meia hora de conversa, a beber cerveja com o Fernando, aprendi mais sobre o ser humano do que num livro. Quer dizer, são coisas... o Fernando parecia um tipo porreiro, charmoso, com piada, mas tinha estado a torturar! O ser humano é muito complexo, não é bom nem mau. Outro exemplo. Na Eritreia, em 1977, entrei na cidade de Teseney com os guerrilheiros eritreus contra os etíopes. De manhã, os rapazes lutaram, morreram, bateram-se e eu estava a ver, estava a tirar fotografias, estão na Internet, pareciam uns rapazes admiráveis; à tarde, depois de ganharem, violaram mulheres e mataram prisioneiros. Os mesmos rapazes. Portanto, é claro que as pessoas que são capazes do melhor são capazes do pior. A guerra ensina-nos isso, apaga as fronteiras e faz-nos ver o ser humano na sua rica complexidade. Foi essa a aprendizagem que tive e que emprestei a Martin Garret.

E esse é um dos grandes desafios do jornalismo, não é? Se só representarmos esses guerrilheiros pela parte da manhã, damos uma perspetiva completamente diferente da que surge se só os mostrarmos da parte da tarde. Criamos para o público duas visões completamente distintas da mesma pessoa.

Exatamente. E hoje em dia, o problema na Europa, em Espanha e em Portugal também, é que as pessoas exigem denominações específicas. Eu digo: “Eu sou de esquerda, mas acho mal que, não sei, que uma mulher seja agredida, que uma mulher seja violada num bairro marginalizado com imigração descontrolada”. Vão dizer: “Ah, mas então és fascista”. O que é que vou fazer? Respondo: “Depende, há dias em que sou, depende do pé que me pisem!”. Esta exigência de nos situarmos “vamos lá ver, defina-se” tem um problema: é que a vida é muito complexa. Há coisas em que me sinto de esquerda, outras em que me sinto de direita, ou não sinto nada. O mal, como já disse, traz conhecimento. Quer dizer, imagina que se sentava aqui o Hitler: entrevistava-lo ou não? Vais dizer que não, o que é um erro, porque depois até podemos matá-lo, enforcá-lo, mas primeiro devemos ouvi-lo. Seria muito interessante perguntar “porque é que matou aqueles milhões de judeus?” ou “como é que conseguiu o poder?”. Por outras palavras, deixarmos que o malvado nos mostre a sua mente, isso ajuda-nos a defendermo-no, a prevenirmo-nos, a lutarmos. A ignorância não ajuda a lutar, o que ajuda é o conhecimento do inimigo. Depois da entrevista, tu e eu damos uma tareia no Hitler, damos-lhe um pontapé no cu, metemo-lo na prisão, penduramo-lo a um poste de luz. Mas primeiro ouvimo-lo. O problema é que agora, no mundo de hoje, quando o Hitler aparece, a reação é “não, não, não o deixem falar!”. Esse é o erro. É um erro que se comete muito e que é cometido com boa vontade, com boas intenções. Mas é um erro porque nos está a privar de conhecimento e, sem ele, o inimigo usa a nossa ignorância para nos lixar. Eu falei no Hitler mas podia ser o Salazar. 

Bem, ainda assim, vai alguma distância entre os dois.

Claro, estava a falar no caso de Portugal. Podia também ser Franco. Eu oponho-me a Salazar, mas seria muito interessante falar com ele. Ou com o chefe da PIDE! Silenciar é perigoso. Eu insisto, silenciar ajuda aquele que é silenciado.

Dois dias depois de se ter envolvido na Revolução Mexicana, Martin percebe que passou um ponto de não retorno, que a sua vida nunca será a mesma nem nunca mais verá o mundo com os mesmos olhos. No entanto, ele não teme isso, sente-se inebriado pelos acontecimentos. Que sensação é esta?

Quando via coisas assim, era uma espécie de turbulência de sensações e ideias, mas eu tinha uma vantagem. Passo a explicar: se eu não tivesse lido muito antes, durante e depois, a guerra ter-me-ia traumatizado psicologicamente, perturbado, provocado stress pós-traumático, tornado-me cínico ou vingativo ou antissocial ou o que quer que fosse. O facto de ter lido muito permitiu-me projetar o que via nos livros que li, deu-me explicações. Via-me a caminhar pela selva, pelo deserto e pensava nos 10 mil de Xenofonte na Anábase. Via uma mulher a despedir-se do marido e pensava em Andrómaca e Heitor. Já tinha lido tudo isso antes. Portanto, estava a identificar-me, o que me permitiu compreender. E quando se compreende, dói menos. Ou seja, o problema é quando não se compreende, quando se está desnorteado, embriagado de horror e de dor. Por isso, graças aos livros, consegui digerir e ser um tipo normal, não andar por aí a matar pessoas, a empurrá-las ou a cuspir nelas. O ser humano é um filho da mãe, um grande filho da mãe. Os seres humanos são muito maus, mas também são muito bons. Por isso, a guerra permite-nos ver as duas coisas — amamos os homens o suficiente sem nos deixarmos cegar por eles e desprezamo-los o suficiente para não os odiarmos. É a isso que os livros levam.

Os livros ajudam a compreender que tudo isto é parte da experiência universal da humanidade, a vida e a morte.

É sempre a mesma coisa. As circunstâncias específicas, o tempo e o lugar histórico mudam, mas o facto geral continua a repetir-se na história. O Titanic repete-se continuamente. Dou-te um exemplo de como estamos a bordo do Titanic. Isto [aponta para um telemóvel], o carro elétrico, tudo depende da luz. O nosso mundo baseia-se neste funcionamento. Mas quando há um terramoto, uma guerra ou outra desgraça qualquer, a luz vai à vida, deixa de haver. Então, sem ela, os hospitais não funcionam, os carros [elétricos] não funcionam, nada funciona. Vai-se para o aeroporto e acontece que o telefone está sem bateria e não se pode entrar no avião. Depois, tudo fica parado. Ou seja, vivemos no Titanic e desviamo-nos de icebergs a toda a hora, mas o que se passa é que não nos apercebemos de que há sempre mais um iceberg. A humanidade, especialmente no Ocidente, esqueceu-se de que cada Titanic tem o seu iceberg à espera. Isso torna-nos muito vulneráveis. Para alguém com a minha história de vida, com a minha memória, eu olho para isto e digo “não se apercebem que estamos sempre em perigo?” Portanto, este tipo de, digamos, suicídio técnico voluntário e complacente do Ocidente parece-me espantosamente estúpido. Por isso, o meu ensinamento é que uso este telefone [mostra um telemóvel com teclado de botões], não dependo de um smartphone, tenho um carro a gasolina, tenho o meu aquecimento em casa a carbono. Ou seja, estou preparado, digamos assim, porque a vida que levei ensinou-me que todo o progresso técnico tem o seu acidente técnico.

Já que é um amante da literatura grega, pode dizer-se que esse "suicídio técnico" de que fala é uma forma de húbris?

Exato. Quero dizer, atingimos um grau de arrogância ao pensar que temos o mundo aos nossos pés, todo aqui [aponta de novo para um smartphone]. Mas olha, outra coisa interessante. Há 100 anos, os teus avós, os meus avós, tinham justificação para não saber mais. Era difícil saber. Se não tivesses privilégios, se não fosses à escola, se tivesses de estar a trabalhar no campo, não podias saber mais, não percebias o mundo. Portanto, só os privilegiados é que podiam ter acesso ao conhecimento. Agora com isto, tens 3.000 anos de cultura e de história, tens tudo aqui, mas nós usamo-los para jogar, para tirar selfies, para as redes sociais, para isto e aquilo. Não há justificação para isso. Quem é analfabeto agora é porque quer, é voluntário. Quem agora ignora 3.000 anos de cultura, economia, sociedade e filosofia é porque quer. Já não há vítimas inocentes, somos todos culpados. E o que é que acontece? O próximo passo é muito perigoso, porque chegas ao seguinte pensamento: será que devemos desprezar a humanidade por isso? Isso pode fazer nós misantropos, que mandamos os outros tomar no cu. É muito perigoso porque pode tirar-nos a compaixão, a caridade, a solidariedade, a humanidade. É uma luta contínua quando se tem 72 anos como eu e uma vida como a minha, é uma luta contínua para nos mantermos agarrados à humanidade apesar de muitas forças nos afastarem dela [risos]. A minha tragédia é continuar a amar estes filhos da puta que estão a devastar Lisboa, este turismo de massas descontrolado em que lhes é indiferente se estão aqui ou no Porto, não falam uma palavra de português, não querem saber, vêm fazer surf e vão-se embora. Continuar a amar a humanidade apesar disso é muito difícil, mas é essa a minha luta, estás a perceber? E os romances ajudam-me. O romance ajuda-me a acalmar, é como uma aspirina: não elimina a causa da dor, mas ajuda-me a suportá-la. Os meus romances são a minha aspirina.

Já referiu em várias entrevistas que parte da inspiração para este romance veio também da sua história familiar. Como e que tipo de noções é que lhe passaram sobre a revolução mexicana?

Um dos meus avós era engenheiro de minas e na escola teve um colega que foi para o México e viveu a Revolução. Estando lá, mandava cartas ao meu avô a contar-lhe o que se passava, sobre o Pancho Villa, etc... Então as cartas estão em minha casa, eu li-as e pensei “é uma boa maneira de contar uma história”. Foi aí que tive a ideia. As cartas do amigo do meu avô, mandadas entre 1911 e 1914.

Esses relatos passaram-lhe uma ideia mais seca e direta da Revolução ou uma coisa mais romanceada?

Ele foi apenas uma testemunha. Era um homem instruído, era um engenheiro, um técnico que olhava para aquilo e quis contar os factos. Não os analisou, disse “aconteceu isto e aquilo…” Todos os meus romances começam com alguma coisa: uma mulher que passa, uma música, uma conversa, um gosto, um cheiro. Neste caso, foram as cartas.

Esta não é a primeira vez que retrata o México, já o tinha feito em 'Rainha do Sul'. Entre estas duas histórias dista quase um século. Sente que há alguma ponte de diálogo entre as duas, entre o México que podia ter sido e o México que nos chegou?

Sim, a crueldade e a ternura. O México é um país muito interessante, muito contraditório. É o país mais interessante da América, mais do que o Brasil, porque tem tudo. Tem dinheiro e pobreza, cultura e ignorância, ternura e violência. Há crueldade, a vida humana não vale nada. Mas, ao mesmo tempo, no norte, há um folclore muito rico, muito interessante, as cantinas, as pessoas, a tequila, as mulheres são lindas e engraçadas e os homens são... bem, quando um mexicano é teu amigo, é um verdadeiro amigo, mas eles também são muito perigosos. Então é um país cheio de possibilidades para um escritor. Gosto muito do México, vendo muito bem lá, conheço-o bem e impregnei-me da sua ambiência, pensei que era um bom cenário para este romance.

Perguntava-lhe isso também, mais concretamente, porque a ideia que o livro passa é de que a Revolução tinha uma centelha de possibilidade, que não aconteceu ou que foi derrotada, e hoje temos um país muito complexo, como descreveu.

Também me interessava contar como a revolução é sempre traída. Como estava a dizer, numa revolução há os que vão e a fazem, os que conseguem, mas depois são deixados de fora e chegam os outros. “Vai, vai, sai do meu caminho, agora trato eu disto”, e depois fazem o que quiserem. Olha, eu estive na Nicarágua, em El Salvador e na Roménia. E a Nicarágua passou por uma guerra tão grande... Eu vi miúdos a lutar e a morrer, para que agora o filho da puta do Daniel Ortega tenha uma propriedade chamada Nicarágua. Porque é que todas essas pessoas lutaram e morreram para isso? Como em Cuba com Fidel ou como na Venezuela com Maduro, no final tudo acaba como aconteceu, como a Revolução Russa. Porquê? Porque as boas intenções são uma coisa. Tu lês 'O Manifesto Comunista' de Marx e Engels, e lês e dizes para ti próprio “caramba, eles têm razão, é verdade”, e tens 'O Capital' e pensas “tal e tal processo, a burguesia, é melhor aliar-se a ela, depois destruí-la, tal e tal, “ a ditadura do proletariado e a constituição de um estado, etc…”. Agora, ponham seres humanos a aplicá-lo. O que entra aqui? A ambição, a vaidade, a luxúria do ser humano. Portanto, é claro que as grandes causas acabam sempre por se perverter nas mãos da condição humana, porque nós somos como somos. É por isso que nenhuma revolução triunfa bem, porque no fim são os homens, as mulheres, que a levam a cabo, e esse é o problema, na medida em que é o ser humano que estropia aquilo que ele próprio organiza. É uma espécie de paradoxo, não é? Sim, sim, o ser humano é belo, brilhante e magnífico quando tem a grande ideia de mudar o mundo e depois o mesmo estraga a sua própria ideia e transforma-a em ditaduras e miséria. É assim a história da humanidade.

A sua tese parece ser que não acredita no resultado das revoluções, mas acredita que têm de acontecer. É essa a sua trágica ironia, de que fazem parte do motor da história?

Sem dúvida, é claro. Por outras palavras, o que não é possível é conformarmo-nos. Não se pode aceitar que estejamos aqui [no hotel] enquanto há pessoas num bairro marginal a viver com menos de 500 ou 600 euros. Isso não pode acontecer, tem de mudar. Portanto, é normal e é bom que isto aconteça porque é bom que as pessoas tenham medo. É bom que eles, os poderosos com dinheiro, saibam que se forem descuidados vão ter a garganta cortada. É bom, é higiénico, é saudável. Caso contrário, se souberem que se podem safar, não há nada que os impeça. O medo é bom. Quando se perde o medo, estraga-se tudo. Temos de ter medo, porque faz-nos agir melhor. Por isso, não importa se falharmos mais tarde; o facto de os seres humanos sonharem em mudar o mundo, sonharem em pendurar o tirano no candeeiro da rua, cria momentos muito bonitos na história da humanidade e é necessário. Olha para o 25 de Abril, conseguem imaginar como foi esse dia aqui? 

Ainda não tinha nascido!

Eu trabalhava como jornalista, estava no Médio Oriente quando o povo veio para aqui, os soldados na rua com os cravos, o povo estava lá. Esse momento de glória foi estragado como tantas coisas são estragadas porque chegaram as pessoas do costume, mas nesse momento bonito.... A humanidade precisa desses momentos bonitos para ter fé, senão seríamos todos sombrios, tristes e derrotados de antemão. É preciso tentar; mesmo que falhemos, temos de tentar.

A Revolução Mexicana iniciou-se em 1910 e terminou em 1920 (ou 17). Por incrível que pareça, ainda há pessoas vivas desse tempo, ou seja, não é tão distante assim. No entanto, a hipótese de revolução ou de mudança sim. Hoje estamos mais imobilizados que nunca?

Sim, há uma batalha que a humanidade perdeu. Sabemos agora que não há esperança. No início do século XX, ainda havia esperança de que o mundo mudasse. Até mesmo palavras como comunismo e fascismo ainda não tinham mostrado o seu lado negro. Ainda havia pessoas honestas a pensar “que diabo, comunismo, fascismo, tal e tal…”. Agora, quando dizemos fascismo, isso significa Auschwitz, nazis, etc… Mas nessa altura isso ainda não tinha acontecido. Havia pessoas que acreditavam que estas eram soluções. Havia uma espécie de, digamos, inocência universal, uma esperança de que os “ismos” — o comunismo, o fascismo, o anarquismo, o socialismo, o que quer que fosse, a revolução, a luta — mudariam o mundo. Agora sabemos que não mudaram, sabemos que todos os “ismos” acabam em gulags, em Auschwitz, em cadeias, em prisões e em ditaduras e em canalhas a ganhar dinheiro à custa dos outros. Assim, perdemos, digamos, a inocência que nos permitia sair à rua com vontade de mudar o mundo. Agora, se saímos à rua, é para nos vingarmos dele. Agora, a revolução que será a revolução dos desesperados.

Não há um projecto?

Nem existe uma ideologia. Não há futuro. Trata-se de destruir o que é injusto e o que nos está a lixar. Vai ser muito interessante. Eu não vou ver porque estou a chegar ao fim, mas vocês vão ver. Vão ver pessoas a arder e a destruir, não para o bem, mas por vingança. E isso vai ser um processo, vai ser a grande vingança da história, é o que vai ser.

Está a fazer recordar aquela espécie de maldição chinesa: "Desejo-te tempos muito interessantes".

Sim, serão muito interessantes. Tudo isto arderá, e não será para fazer aqui uma escola, nem um hospital, nem um colégio. Não, é para destruir e, por vingança, fazer as coisas desaparecer. É esse o futuro. Vai ser muito interessante.

Desde 2021 que vai escrevendo crónicas chamadas 'História da Europa' no 'XL Semanal'. Antes tinha escrito sobre a História de Espanha. A atualidade e o rumo europeus são algo que o preocupam?

Tenho quase 73 anos, já não estou preocupado. Tive uma vida óptima, passei por uma excelente etapa da Europa, a melhor. Políticos competentes — comunistas como Berlinguer em Itália, à direita como De Gaulle em França, Adenauer, Churchill… Vi Papas como Paulo VI e João XXIII, não como este, o argentino, que é um palhaço, um demagogo e do mais falso do que há. Este tipo traiu o seu povo, quando a ditadura militar prendeu os padres na Argentina, este sacana não os defendeu, virou as costas e não sabia de nada. Agora anda por aí assim, mas toda a gente sabe. Por outras palavras, o mundo de hoje tem o que merece. Quer dizer, eu tenho esta idade e digo a mim mesmo “não vou estar aqui”. A minha filha tem formação, é historiadora e trabalha no fundo do mar, é arqueóloga subaquática, e fala também sete línguas, está altamente preparada para enfrentar o mundo que aí vem. Eu não vou lá estar. Não estou preocupado com nada. Agora, seria interessante estar à janela com um copo de vinho a ver Roma a arder e os bárbaros a saquear a cidade. Às vezes sinto-me como esse romano à janela... e as pessoas dizem “oh, que horror!”. Claro, mas o que é que esperavam? É normal que isso aconteça. Os próprios romanos aliaram-se aos bárbaros também para destruir uma cidade injusta. Pensaram que o navio era insubmersível? Pensaram que esta ia ser a orquestra que ia estar sempre a tocar? Não é. Portanto, há uma espécie de vingança da história e o que lamento é talvez não estar aqui para vê-la.

Afirma-se como um escritor à moda antiga, “old fashioned”, e os seus livros seguem também esse recorte clássico. No entanto, tem os pés bem assentes no século XXI, fez um podcast e é presença ativa na rede social X.

Claro, vivo no meu mundo. Não sou um marciano nem vivo numa torre às escondidas. Não sou um reacionário que grita da janela “o mundo inteiro é mau”. Não, não, o mundo é ótimo! Há mulheres bonitas, há homens interessantes, há coisas novas maravilhosas, há tecnologias excelentes e muito úteis. Acho que isso é ótimo. Não me escondo no meu passado; o que acontece é que eu uso o passado e o presente, mas vivo no meu mundo. A minha literatura é “old-fashioned”, como dizes e mesmo quando me visto, sou muito “old-money”, visto-me de uma forma mais clássica, com um casaco, etc. Mas não vivo de costas para o mundo, não sou um inimigo do mundo, gosto dele, é divertido só que tento ser lúcido, manter os olhos abertos, não ficar atordoado nem me deixar envolver de forma absurda e perigosa por um mundo moderno. Aceito a modernidade, mas não me deixo seduzir, enlouquecer ou alienar por ela.

Portanto, não vive numa torre de marfim.

Não, não, de todo. E a verdade é que há autores que têm leitores mulheres, homens, idosos, etc… Eu tenho leitores em todas as áreas, tanto me leem pessoas de 80 anos como jovens de 18 anos, porque eu não tenho um só registo, movo-me em todo esse território.

Conta em entrevistas como herdou duas bibliotecas dos seus avós, uma com clássicos e outra com thrillers e policiais. Podemos afirmar que a sua escrita é uma síntese das duas?

Para mim, não existe alta e baixa literatura. Cresci com duas bibliotecas e para mim Agatha Christie era tão importante como Dostoievski, Cervantes como Raymond Chandler ou Dashiell Hammett. Portanto, claro, desde criança que tive essa mistura e a literatura foi um lugar amplo onde cabia tudo: o que nos diverte, o que nos faz pensar, o que nos intriga, o que nos muda o coração, muitas coisas. Por isso é que nunca tracei linhas e que a minha literatura envolve as duas coisas. Nos meus livros há conceitos sérios e profundos e há também coisas que são divertidas, aventureiras, cheias de ação. E aprendi tudo isso na literatura. É por isso que tenho a sorte de ter um vasto leque de leitores em muitos países.

Não diria que a sua literatura se possa considerar literatura de género, mas…

...a minha literatura toca em muitos géneros. Por exemplo, o meu último romance em Espanha chama-se 'El problema final', é um romance policial puro e clássico. O que vem a seguir, 'A ilha da Mulher Adormecida', é um romance de aventuras passado no Mar Egeu. Por outras palavras, há uma série de constantes nos meus romances. Um certo tipo de mulher que me interessa muito, um tipo de herói que me interessa muito também. Há, digamos, um território Reverte, mas altera-se consoante as circunstâncias, ou seja, estou sempre a mudar os romances. Sou um escritor muito coerente, muito fiel a mim próprio nesse sentido.

Ia fazer-lhe essa pergunta, mas antes estava a perguntar-lhe sobre literatura de género, porque criou uma editora mais dedicada aos livros de aventura, a Zenda. Sentiu que é um género literário um pouco negligenciado?

Sim, e no entanto cria leitores. Quero dizer, não se pode dar a um miúdo 'A Cartuxa de Parma' ou 'Crime e Castigo'; ele vai dizer “não, isso não”. Temos de lhe dar livros que o incentivem, como 'A Ilha do Coral' ou os Robinson Crusoé, esse tipo de obras. Mas bem, digo que a Zenda surgiu porque é uma espécie de cooperativa entre amigos. Apercebi-me de que, nos eventos literários e culturais espanhóis, só apareciam os que pertencem à sua ideologia ou os que são bem conhecidos. Um jovem autor que está a começar, que não tem nada disso, ninguém aparece. E nós criámos a Zenda para dar espaço a todo o tipo de autores, desde a alta literatura ou os grandes autores até aos autores desconhecidos, e estamos a ir bem. A Zenda está, neste momento, entre as revistas digitais culturais espanholas mais influentes. E dentro da Zenda decidimos criar um selo editorial para aqueles romances que já não se leem, que já não se publicam, mas que são romances que formam leitores. Romances como os do Fantômas... Já leste Fantômas?

Não, não posso dizer que tenha lido... 

É divertidíssimo, são romances muito engraçados. Ou 'A Ilha do Coral', que é um romance de aventuras maravilhoso... “As Quatro Plumas”... Quisemos trazer de volta romances clássicos de aventuras que já ninguém lê. É isso que estamos a fazer e está a correr muito bem, estamos muito satisfeitos com isso.

Apesar de perder-se em parte na tradução, parece ter tido um forte cuidado na transposição de uma certa oralidade mexicana para o livro. Que trabalho é que isso implicou?

O romance está escrito em espanhol mexicano, não em espanhol europeu, com palavras distorcidas e por aí fora. Por isso, como eu sabia que seria difícil para os tradutores —imagine um tradutor japonês ou russo, claro que ficariam loucos com isto— foi por isso que eu fiz um glossário de palavras, uma espécie de dicionário de mexicano e todos os editores receberam-no. O editor e o tradutor portugueses receberam esse glossário e aplicaram-no ao romance, ficou muito bem traduzido. É um trabalho excelente, muito completo, é muito bom. Não é que se ponham aspas à volta das palavras que estão em itálico, é muito bom. É muito difícil, quer dizer, este é um romance que deve um grande mérito aos tradutores, sobretudo a este.

Mas que trabalho é que teve de fazer para passar essa oralidade para os livros?

Sou um escritor profissional, escrevo romances há 35 anos, tenho experiência. Há um problema com a oralidade, um engano: pensa-se que se escreve como se fala como na rua. Não, a linguagem da rua não funciona na literatura. Temos de a transformar, temos de lhe dar um tratamento narrativo diferente, para que soe como nas ruas, mas não é como nas ruas. Lê-se em voz alta e diz-se “eles não falam assim na rua”, mas tem de funcionar, tem de criar no leitor a impressão de que é da rua. Isto também me acontece com os livros do Capitão Alatriste, são romances que publiquei sobre a Espanha do século XVII numa língua que não é a língua da época mas que tem o perfume. Isso exige um trabalho muito sério de adaptação da língua e isso, bem, é o talento ou o trabalho que se pode ter, ou o que quer que seja, não é? Mas requer muito trabalho, não é por acaso, não surge por si só.

Mas para este romance, foi ao México?

Sim, sim. Eu conheço bem o México, mas fui lá outra vez. Estive no norte, tomei notas, gravei conversas, escrevi palavras, perguntei aos meus amigos, etc… E fui tomando notas para que, quando introduzisse esses termos no texto, desse a impressão de que tudo era assim, mas não é. É criada artificialmente, mas parece ser a língua mexicana autêntica da época. Fiz isso lendo muitos livros da altura, romances da época, e pegando em glossários e palavras desse período.

A dado momento, o revolucionário Genovevo Garza diz o seguinte ao protagonista, que é espanhol: “há uma coisa que me está aqui atravessada, sabe?... Alguns louros vêm passear ao México à turista e olham como que de longe. Julgando o que veem ou o que julgam ver, não com os nossos olhos, mas sim com os deles.” O que é que é o México, olhamo-lo de forma inexata? 

É um erro muito ocidental, muito europeu também. É aplicar o nosso ponto de vista a tudo. A nossa visão é uma visão ocidental, civilizada, dos direitos humanos, da história europeia, das monarquias e das repúblicas. Mas é claro que no mundo, em África, na Ásia, no México, não é assim, por isso não podemos julgar com os nossos critérios morais, éticos, sociais ou políticos, ações que não têm nada a ver com o nosso mundo. O México é diferente, por isso o que temos de fazer é ir lá e falar com eles, não olhar para o mundo daqui e dali, e a visão é completamente diferente. Na minha vida de jornalista, habituei-me a fazer isso. Costumava dar-me com os palestinianos, os angolanos, os timorenses, os nicaraguenses, e vivia com eles, dava-lhes cigarros, conversava, comia e tentava ver o mundo como eles o viam. É a única maneira, senão não funciona. Por isso, como romancista, faço a mesma coisa. Ponho-me lá e tento ver o mundo como eles o veem. É por isso que Garza diz que é preciso ver o mundo não como um turista “ah, que bonito! Vamos tirar uma foto!”— mas a partir do interior. Eu tento fazer com que os meus leitores vejam o mundo por dentro. Não quero que o meu leitor seja uma testemunha do espetáculo, quero que participe. Quero que o leitor se sinta dentro da luta de Celaya, que esteja com Geno Garza, que se apaixone por Yunuen, que vá. Quero que o leitor esteja lá dentro. É essa a minha intenção.

Representa algumas das facetas menos positivas da sociedade mexicana da altura: o machismo, o papel subordinado mas nem sempre das mulheres…

É que havia de todos os tipos. As mulheres são muito importantes no meu romance. Mulheres poderosas num mundo de homens que lutam contra as regras feitas por eles com essas próprias regras. No romance, há três mulheres que são significativas. Uma é a guerrilheira, analfabeta. A outra é uma jornalista americana, com um olhar perante a situação. E a outra é a mulher da boa sociedade, que é uma sacana. O que ela quer é o casamento, quer estabilidade. Portanto, claro que são abordagens diferentes, mas são todas mulheres que lutam para desempenhar, digamos, um papel no mundo que lhes foi dado.

Tomou a decisão narrativa de não dar tanto destaque a Emiliano Zapata no livro, o que é curioso, porque Zapata é, de todas estas figuras históricas, é o único que ainda perdura fortemente no atual panorama político mexicano com o movimento zapatista.

Porque Zapata era mais honesto do que Villa. Zapata era realmente um revolucionário, Villa era um brigante, um oportunista, mas era com Villa com quem teria ido beber uns copos, rir-se-ia connosco, teria sido nosso amigo, percebes? Zapata era o índio, revolucionário, sério, trágico, sabia que o iam matar, tinha a morte pintada na testa. Portanto, é claro que Zapata era uma figura nobre no sentido revolucionário, Pancho Villa era um fura-vidas, um boémio, dormia com várias mulheres, era um tipo diferente. Portanto, é claro que, como figura nobre revolucionária, Zapata sobrevive, enquanto Pancho Villa é folclore.

Não há muitos escritores com um ritmo de publicação tão incessante como o seu. O que o leva a continuar a produzir assim?

Gosto de o fazer, é a minha vida. É como brincar em criança. Quando era miúdo e via um filme, vestia-me de soldado, de índio, de cowboy, de tudo. E agora é a mesma coisa, é brincar. Todos os dias levanto-me para brincar. “Vou ser um guerrilheiro, vou ser um detetive”. É um modo de vida, faz-me feliz. Sou um escritor feliz. E tenho amigos que são escritores e para eles é um horror, a página em branco, a amargura.... Eu só penso “rapaz, muda de profissão. Cometeste um erro...”. E sou feliz, divirto-me muito, gosto muito. É verdade que também gosto mais da fase de preparação; escrever é mais mecânico, mais rotineiro, mais árido — mas a preparação de um novo romance, ir ao país, viajar para o sítio… O meu novo romance passa-se nas ilhas gregas, então ir à Grécia, estar lá e ver as coisas, as mulheres, os homens, tomar nota da comida, da luz, da cor, ler livros. É maravilhoso, é uma aventura diária.

É um pouco como uma revolução, tem um mundo de possibilidades à sua frente.

Exatamente. Além disso, tudo é possível e depois, quando acaba, dizemos “não, ainda posso fazer outra coisa”. Nunca se acaba, nunca se chega ao fim, fica sempre qualquer coisa, vamos ver se consigo fazer no próximo. Estou a desafiar-me. Há nisto uma parte boa, que é o facto de me obrigar a estar em forma, a estar lúcido. Não é estar ali, velhote, a ver televisão ou a ouvir rádio, ou só a ler. Não, não, obriga-me a estar vivo, a ver, a falar contigo, a viajar e a observar os sítios. Obriga-me a ler, a ver filmes. Por outras palavras, obriga-me a viver. Mantém-me em forma. É um exercício pessoal muito interessante.

Não sei se esta expressão também existe em espanhol, “parar é morrer”.

Exatamente, é como pedalar numa bicicleta, se parares vais lixar-te todo. Bem, eu continuo a pedalar.

https://24.sapo.pt/vida/artigos/arturo-perez-reverte-perdemos-a-inocencia-que-nos-permitia-sair-a-rua-com-vontade-de-mudar-o-mundo-agora-se-saimos-a-rua-e-para-nos-vingarmos-dele

08 octubre 2024

"O ser humano é bom e mau ao mesmo tempo. Pode-se ser herói de manhã e violador à tarde"


Entrevista de José Cabrita Saraiva - sol.sapo.pt - 09/10/2024

Autor de sucessos como 'A tábua de Flandres', 'O Clube Dumas' e 'O pintor de batalhas', Arturo Pérez-Reverte dispensa grandes apresentações. Nasceu há 72 anos em Cartagena (região de Múrcia) e foi durante cerca de duas décadas repórter de guerra. Esteve na Nicarágua, em Angola, no Líbano, na Eritreia e em muitos outros cenários de conflito. Considera essa experiência decisiva para escrever os seus romances, com os quais tem conquistado o reconhecimento não apenas dos leitores, mas também da crítica e dos seus pares. Desde 2003 é membro da Real Academia Espanhola. O seu livro mais recente, 'Revolução' (ed. ASA), ambienta-se no México de 1911, em plena revolução de Emiliano Zapata e Pancho Villa, e tem por protagonista Martín Garret Ortiz, um jovem engenheiro de minas espanhol que se vê desocupado e acaba por aderir ao grupo dos revoltosos. «De certa forma é a minha própria biografia. Sou um jovem que vai para a guerra com vinte anos, e descubro que a guerra é uma escola de aprendizagem muito interessante», revela-nos o autor. Encontrámo-nos com ele num hotel de Lisboa, e foi precisamente por aí, pela cidade e as suas transformações recentes, que a conversa começou.

Lembro-me de há uns anos me cruzar consigo nos Restauradores. Vem a Lisboa com frequência?

Venho muito, mas cada vez que cá venho fico furioso.

Porquê?

Porque os turistas destruíram a cidade. Venho a Lisboa há 50 anos. E a Lisboa de que me lembro é uma Lisboa elegante, tranquila, bonita. Isso desapareceu. Está a acontecer o mesmo em Sevilha, em Barcelona, em Paris. O turismo está a destruir completamente a Europa. São turistas que se estão a borrifar, nem sabem onde estão, se é Lisboa ou Porto, não se dão ao trabalho de conhecer a história, não falam uma palavra de português. Vêm e vão. É um turismo absolutamente analfabeto.

Em Paris assisti a uma cena insólita. Uma rapariga no Louvre tirou uma selfie com a Mona Lisa e foi-se embora. Nem sequer olhou para o quadro, esteve sempre de costas!

Isso é a Europa neste momento. E Lisboa, que estava um pouco à parte, também caiu na armadilha. A Europa foi sempre uma referência intelectual, cultural e moral. E o turismo de massas está a destruir isso. Nenhuma cidade aguenta cinco mil turistas que saem de um cruzeiro e nem querem saber onde estão, basta-lhes fazer uma foto e já está. O problema é que as cidades se transformam para adaptar-se a esse tipo de turista, um turista que não é exigente culturalmente, socialmente, que tanto lhe faz. Onde antes havia um restaurante onde se comia um bacalhau, agora há uma pizaria ou uma loja de burritos mexicanos ou de hambúrgueres. Essa Lisboa bonita, elegante, morreu. Sempre que cá venho dá-me uma grande melancolia. Cada vez mais a vejo entregue a esse turismo que é bom para a economia, mas destrói a essência de qualquer lugar e uniformiza tudo. Hoje, estar em Milão, em Barcelona ou em Lisboa é a mesma coisa: as mesmas lojas, as mesmas marcas, as mesmas pessoas, tudo igual.

São as novas invasões bárbaras.

Exato. Estes são os novos bárbaros. O que vai destruir a alma da Europa não é o Islão, é o turismo indiscriminado, maciço, brutal, analfabeto, que não percebe nem quer perceber.

Muito bem, vamos então começar…

Mas já começámos!

Tem razão. [risos] Em relação ao seu livro, porquê escrever um romance sobre a revolução mexicana, mais de cem anos depois? Donde surgiu essa ideia?

Queria contar a história de uma aprendizagem de vida. Como um jovem normal, através da violência, da revolução, da morte, da incerteza, do sexo, descobre a vida e se torna maduro e adulto. Podia ter escolhido outra coisa, mas a revolução mexicana dava-me muitas possibilidades narrativas. Primeiro, porque um amigo do meu bisavô esteve no México, na altura da revolução. Era também engenheiro de minas, como o meu avô [e o protagonista do livro, Martín] e mandava-lhe cartas. Essas cartas estão em minha casa, e eu li-as. Essa é uma das razões que me levaram a escolher a revolução mexicana. Mas há outra. Um romance precisa de um cenário em que os personagens e a ação se desenvolvam bem. E o México dava-me essas possibilidades: a revolução, um povo analfabeto, violência, inocência atraiçoada, um tesouro… No México houve, na realidade, duas revoluções: a do sul, com Zapata, e a do norte, com Pancho Villa. A do sul era demasiado triste. Zapata era um índio trágico, sombrio, obscuro, que sabia que ia morrer. Pancho Villa era um bandoleiro simpático, mulherengo, corrupto. Era muito mais interessante o ambiente no norte do que no sul…

Aliás, aqui na capa, esta silhueta dos cavaleiros faz lembrar D. Quixote e Sancho Pança, também duas figuras contrastantes – D. Quixote esguio e idealista, Sancho prático e redondo.

É um pouco isso, sim. Villa era um tipo muito simpático, arrebatador, mas também cruel e duro. E depois havia outra coisa que me interessava muito. Este não é só um romance inventado, de certa forma também é a minha própria biografia. Sou um jovem que vai para a guerra com vinte anos, e descubro que a guerra não a guerra em si, mas o que acontece lá é uma escola de aprendizagem muito interessante. Aprendo coisas sobre a vida, sobre o amor, sobre a lealdade, a morte, a violência, a tortura. Para mim, durante vinte anos a guerra é uma aprendizagem. E queria transferir essa minha experiência para uma personagem. Não ia falar de mim, mas…

Ia falar de si através da personagem.

Exatamente. Um romancista escreve com três elementos: o que leu; o que viveu; e o que imagina. Eu tenho uma vantagem: passei vinte anos em lugares muito violentos, nos quais recolhi informação muito densa. Quando falo de matar, de torturar, não estou a inventar, estou a recordar-me. Portanto recorro à minha memória —para este romance li toda a literatura sobre a revolução mexicana, todos os romances, tenho uma biblioteca grande e li tudo o que pude—, ao que imagino e à minha própria biografia. Sei o que sentimos quando estamos debaixo de fogo, quando estamos a fugir sozinhos ou quando estamos rodeados de militares amigos.

Ou quando se ouve as balas a passar.

Não preciso que ninguém me conte, sei como é. Claro que a guerra hoje não é igual ao que era em 1911 ou nos anos vinte. Mas os elementos essenciais são esses. Estive em Angola no princípio dos anos 80 1981 ou 82 com a guerrilha da UNITA. No meio do mato havia um pequeno hotel, com garagem e tal, e eu estava lá com os guerrilheiros a beber umas cervejas. Ali ao lado havia um mercenário português, chamado Fernando, que estava a torturar um preto inimigo, porque queria arrancar-lhe informações.

E ouvia-se?

Eu ouvia gritar: "Aiii". O tipo depois apareceu todo suado. Tinha combatido em Angola e ficou lá como mercenário. Era um tipo pequeno, calvo, com barriga, mas simpático. Um torturador também pode ser simpático... quando não te tortura [risos]. Paguei-lhe uma cerveja e começámos a conversar. Contou-me coisas muito interessantes. Por exemplo, que é mais fácil torturar um inteligente do que um estúpido. O inteligente, basta-lhe pensar que vai ser torturado e começa a tremer. O estúpido, se não tens cuidado, podes matá-lo. Aprendi, com três cervejas que lhe paguei, muitas coisas sobre o ser humano, a tortura, a violência, a crueldade. E aprendi que o mal pode não ter má cara. Era um tipo simpático, divertido, podia estar aqui a contar-te uma piada. Esse tipo de experiência que tenho na memória é-me muito útil para contar as minhas histórias.

Nesses contextos a bebida e os cigarros ajudam a estabelecer relações, a fazer amigos?

Muito. As pessoas aqui não percebem como isso é importante na guerra. A guerra é solidão, rotina… Eu falo da guerra, mas não a fiz. Ia e vinha, era um turista da guerra, digamos. Mas aquele que está metido num buraco na Ucrânia quem diz na Ucrânia diz em Troia ou nas cruzadas não tem nada. Então, claro, um cigarro ou uma bebida, os camaradas… Montam-se núcleos de sobrevivência com essas pequenas coisas. Eu na altura fumava, mas levava sempre para a guerra muitos cigarros, porque chegava a um sítio e a forma de fazer amigos era distribuir tabaco. Sentávamo-nos a falar e ao fim do dia diziam-me: "Vamos atacar amanhã. Vem connosco". Os cigarros ajudaram-me imenso. Em Angola, em El Salvador, na Nicarágua, no Líbano… não fazes ideia do que consegui graças aos cigarros. Fiz muitos amigos. Chegas, ofereces um maço de tabaco e já está.

Uma das questões que o romance coloca tem que ver com o que move os revolucionários. Tanto pode ser o idealismo como o pragmatismo, tanto pode ser o sentido de justiça como o proveito pessoal. Perto do final do livro, o índio Sarmiento resume isso numa frase: «A revolução só lhes importava enquanto estivessem em baixo; uma vez em cima, iam acomodar-se». Também vê as coisas assim?

É verdade. Vimos isso em muitos sítios. Na Rússia, em Cuba, em Angola, Moçambique, e até em Portugal. Como repórter, cobri várias revoluções: a da Roménia, a da Nicarágua… Estive na Nicarágua com os sandinistas. Lutaram para que agora Ortega tenha a sua quinta, que se chama Nicarágua. Quase todas as revoluções acabam assim. A ideia pode ser boa e nobre, mas é concretizada por seres humanos. O ser humano tem dentro de si ambição, vaidade, luxúria, cobiça, e isso faz com que, quando chega ao poder, as boas intenções desapareçam. Todas as revoluções acabam sempre nas mãos dos mesmos. Quem fez a revolução é sempre afastado… Vê Salgueiro Maia. Um homem bom, corajoso, honrado. Um herói que se arriscou de verdade, enquanto os outros ficavam atrás a ver o que dava. O que é que lhe aconteceu? "Agora vai para o quartel que fico eu aqui a mandar". Isso é a história da humanidade. E também está aqui no romance.

A sua aprendizagem como repórter de guerra foi também uma aprendizagem de cinismo?

De cinismo não, eu não sou um cínico. A guerra pode fazer-te várias coisas. Quando percebes que o ser humano é um filho da puta e que, no final, é sempre o filho da puta que fica a mandar em tudo, podes tornar-te cínico. Mas também te podes tornar equânime. Continuo a acreditar no ser humano. O que se passa é que não confio no ser humano. Vou tentar explicar…

Não tem ilusões, é isso?

Claro que não. Em 1977 estive na Eritreia, com a guerrilha eritreia que atacou os etíopes em Teseney. Fiquei um mês com eles. Estava doente e cuidaram de mim. Eram como meus irmãos, vivíamos juntos, partilhávamos as refeições, cigarros, conversas. Atacámos a cidade de manhã. Eu também levava armas. Foi um combate duríssimo e muitos morreram. Miúdos novos, verdadeiros heróis. À tarde, depois de vencerem, dedicaram-se a matar prisioneiros e a violar mulheres. Os mesmos. Por isso eu digo: pode-se ser herói de manhã e violador à tarde. Eu na altura tinha 24 anos e percebi que a linha que separa o bem do mal pode ser muito difusa. Isso de bons e maus é relativo. Porque o ser humano pode ser bom e mau ao mesmo tempo, a mesma pessoa e no mesmo dia. Isso ou te torna cínico ou compreensivo. Eu compreendi e hoje admiro o ser humano no que tem de bonito e detesto-o no que tem de sujo e nebuloso. E tento ser equânime. Talvez por causa dos livros. Durante as guerras em que estive li sempre muito, levava uma mochila cheia de livros. Os livros ajudaram-me sempre a entender, a serenar, a compreender, a interpretar.

Que tipo de livros?

Já te digo. Sem livros talvez tivesse voltado maluco ou cínico. Os livros deram-me compreensão, deram-me serenidade, deram-me calma. Talvez lhes deva não ser hoje um cínico. Perguntaste livros de que tipo. Levava comigo todo o tipo de livros, mas sobretudo os clássicos. Quando era estudante tive nove anos de latim e quatro anos de grego. Para mim, a literatura clássica tem sido muito importante. Plutarco, Xenofonte, Homero A Ilíada, A Odisseia, os ensaios de Montaigne, Demóstenes, o 'Quixote', a 'Divina Comédia', Chateaubriand... Os livros que me formaram foram os clássicos, os mesmos que formaram a Europa. Uma vez estava a andar no deserto para chegar ao Sudão porque a aviação cubana nos tinha atacado, e pensei na retirada dos dez mil de Xenofonte. Outra vez vi uma mulher que chorava enquanto se despedia do marido e lembrei-me de Heitor e Andrómaca nas muralhas de Troia. Estava sempre a tentar interpretar e foi essa projeção contínua dos livros que tinha lido naquilo que ia vendo que fez com que a guerra fosse nutritiva a nível intelectual. Porque a guerra é sempre horrível. Horrível. Mas tem uma quantidade de lições para nos ensinar. E os livros permitiram-me entendê-la. Imagina que tens um problema, dá-te uma dor qualquer e tomas uma aspirina. A aspirina ajuda-te a suportar a dor, mas não resolve o problema, a causa continua lá. Os livros também não anulavam o horror, mas ajudavam-me a perceber que era uma coisa com três mil anos: os gregos, os romanos, e tal. Quando compreendes, suportas. Se não compreendes, regressas da guerra louco ou cínico.

Não sei se conhece um filme do Robert Zemeckis, 'O náufrago', com Tom Hanks.

Sei qual é mas nunca vi.

É uma versão moderna do Robinson Crusoe. O protagonista é um executivo que viaja num avião que cai e vai parar a uma ilha deserta. Consegue viver ali algum tempo, até que é resgatado por um barco. Quando regressa a casa, fazem-lhe uma festa. E aí ele dá-se conta de como tudo aquilo é supérfluo.

Compreendo, passei por isso.

Andou por esses cenários de guerra, por zonas muito pobres, devastadas. Quando regressava a casa, com que olhos via a nossa sociedade e todas as comodidades de que usufruímos?

Custava-me. Precisava de algum tempo para me adaptar. Uma vez, cheguei, e fui jantar com uma amiga. Fui ter a casa dela, saímos e ela fez uma malha nos collants. Passou a noite toda de mau humor por causa da malha nos collants. No sítio de onde eu vinha, tinha visto pessoas que tinham perdido um braço. Aquilo irritou-me muito. A relação terminou naquela mesma noite porque não suportava aquela estúpida que não percebia que era uma tonteria fazer uma cena por causa de uma malha nas meias. Isso é muito frequente, dás-te conta de coisas que aqui têm importância, e lá não têm nenhuma. O que é que interessa que te tenham feito um risco na porta do carro? Vai-se arranjar. Não é como queimarem-te o carro e a casa contigo lá dentro. Uma das cenas mais tristes, mais dramáticas, da minha vida foi na Croácia, em 1991. Chegámos a uma povoação croata que tinha sido atacada pelos sérvios. Entrámos numa casa toda destruída, roubada. Lá dentro estava uma árvore de natal caída pelo chão e um álbum com as fotos de família. As fotos pisadas pelas botas dos soldados. No pátio está a mesma família, todos mortos. O pai, a mãe, o avô e dois filhos. Uma cena silenciosa, não havia ruído, tiros, nada. Tristíssima. Quando tens isso na cabeça e chegas aqui e te dizem que é uma chatice porque estás atrasado para o teatro… "Epá, vai à merda". Sou como todos, também acabo por me adaptar. Mas demora algum tempo. Uma vez tinha voltado do Líbano e estava no jardim de minha casa, a minha filha tinha um ano ou dois, a minha mulher estava a ler e eu também. Era o dia do desfile das Forças Armadas. Vivo na Serra de Madrid, onde os aviões iam dar a volta. Dois aviões passaram a voar a baixa altitude, eu levantei-me, agarrei a minha filha e depois apercebi-me. A minha mulher riu-se, mas tive esse reflexo de pôr a minha filha a salvo. Essas reações podem manter-se durante muito tempo. Passados trinta anos às vezes ainda acordo de noite por causa de algum barulho. Mas isso é normal.

Mas nunca sofreu de stresse pós-traumático.

Não, não. Os livros ajudaram-me a digerir. Forneciam-me esse analgésico, e permitiram que fosse uma experiência nutritiva, não destrutiva.

O livro tem uma atmosfera de western: ruas poeirentas, pistolas, chapéus…

Naquela altura o México era assim.

As personagens andam a cavalo e fumam charuto. Se se passasse hoje, as personagens teriam de fumar vape e de conduzir carros elétricos?

Não, não, na guerra de verdade continuam a fumar tabaco. Vais à Síria, vais ao Líbano e fumam tabaco. E isso dos carros elétricos é outra estupidez ocidental. Quando há uma guerra ou um terramoto, o que acontece? Falta a eletricidade. Como é que se carrega os carros? Como funcionam os tanques e as ambulâncias? Vivemos uma farsa estúpida no Ocidente. Achamos que podemos mudar o mundo segundo os nossos desejos. Mas o mundo não é assim. Os carros não podem ser elétricos porque se falha a eletricidade, se há um terramoto, uma guerra, um atentado terrorista, não podes carregar os telefones, nem os carros, nem nada. Precisas de gasolina. É ridículo. O Ocidente vive numa estupidez suicida. Legislamos para um mundo ideal que é impossível de sustentar e que nunca chegará. E quando vem a tragédia, apanha-nos a todos. "Que horror! O que aconteceu?". O que aconteceu é que o mundo se impõe de novo.

Hoje quando falha a eletricidade, ou o internet, ficamos completamente desorientados.

Olha para o meu telefone [tira do bolso um telemóvel primitivo, ainda com botões e um ecrã minúsculo]. É este. Uso eletricidade, como toda a gente, mas não me passa pela cabeça comprar um automóvel elétrico. Essa espécie de deriva ocidental para o suicídio social, técnico, etc., parece-me assombrosa. As pessoas levam o cartão de embarque do avião no telemóvel. Vi gente que não embarcou porque tinha ficado sem bateria. Porra, imprimam um papel, não custa nada. As pessoas não se dão conta de que todo o avanço moderno teve um acidente específico. Todo o Titanic tem o seu icebergue. Pode aparecer ou não, mas está sempre ali à espreita. Quando era repórter, se íamos para um combate, fazíamos sempre um plano B. Se as coisas correrem mal, para onde vamos, onde nos escondemos, como fugimos? Preparávamos sempre uma via de escape. O mundo ocidental hoje vive sem vias de escape. E isso é suicida.

Para um romancista, o passado é mais estimulante do que o presente?

Hoje o mundo é vulgar.

Feio?

Já há muita gente a escrever sobre o mundo atual. Eu prefiro escrever sobre o passado. Mas os meus romances são falsamente sobre o passado, porque todos têm leituras adequadas ao presente. Todos servem para perceber melhor o presente. Utilizo o passado como mecanismo. Tenho um romance que se chama 'O tango da Velha Guarda', é sobre um vigarista, um homem bonito, que veste bem, que gosta de mulheres, que rouba, etc. Um canalha. Mas faz isso de gravata, em hotéis elegantes, seduz mulheres bonitas, rouba-lhes os colares de pérolas, extorque milionários. Agora seria um "hacker" que entrava no computador de alguém… É vulgar, não tem encanto nenhum. Não me apetece passar um ano e meio a falar de um "hacker" ou de um tipo qualquer com um telemóvel na mão. Prefiro continuar a mover-me neste território onde me sinto muito mais feliz.

Uma tendência que se verifica muito no romance contemporâneo é o experimentalismo. Parece-me que há uma literatura mais parecida com pintura figurativa e outra mais parecida com pintura abstrata: não quer contar histórias, mas manipular e jogar com as palavras. Há cada vez mais jovens romancistas a querer ser como James Joyce e fazer uma revolução na linguagem.

Sabes qual é o problema? Picasso revolucionou a pintura, desconstruiu a pintura. Mas antes disso aprendeu a pintar muito bem. Primeiro dominou. E depois de dominar decidiu destruir. O problema agora é que com o pretexto de destruírem e de fazerem coisas novas, não leram os clássicos. Encontras escritores jovens, brilhantes, mas a quem falta esse conhecimento dos mecanismos clássicos. Não podes ser um escritor português sem ter lido Homero, Cervantes, Eça de Queiroz, Pessoa, Saramago. Não podes. Precisas de ter uma formação que te permita depois ter a audácia de dar o salto para um mundo novo e desconhecido. Mas querem começar pelo fim sem conhecerem o princípio, e isso nota-se. Faz-me muita pena, porque vejo escritores em Espanha e em Portugal que podiam ser brilhantes, mas falta-lhes essa humildade profissional para conhecer antes de inovar. Uma pessoa pode ser a mais arrogante do mundo, a mais inteligente. No pasa nada [não tem problema], desde que seja humilde profissionalmente, para aprender. Chega e diz: "Mestres, sou jovem e quero aprender". E lê Cervantes, Homero, Dante, Dostoiévski, Galdós, Eça de Queiroz... 'O primo Basílio' é uma obra-prima universal, um dos meus romances favoritos da literatura europeia. Eles são generosos, recebem-te e explicam-te. E quando já aprendeste podes dizer: "Agora vou eu fazer o meu romance". Eu demorei muito tempo a começar a escrever. Primeiro aprendi. Portanto é isso… Noto uma falta de formação clássica e cultural na literatura que os jovens fazem agora.

O que gosta de ler?

Duas coisas, sobretudo. Releio muita literatura clássica, os clássicos gregos e latinos. E romances policiais. Sabes porquê? Já li muito. Tenho uma biblioteca de 32 mil livros em casa, metade deles são livros de História. Quando leste tanto, digamos que já esgotaste as fórmulas que te podem surpreender. Mas o romance policial tem sempre qualquer coisa. Agatha Christie, Conan Doyle, Simenon… Encontro neles mais interesse e diversão do que na literatura, digamos…

Séria?

A literatura que fala de um divórcio, de um casamento, de um caso de assédio. Isso já vem nos jornais. Leio agora a literatura policial com mais interesse e com mais diversão.

Há jovens escritores que lhe pedem conselhos?

Sim, muitos.

E o que lhes diz?

Nunca dou conselhos. Digo-lhes que leiam. Quando um jovem escritor, jovem ou velho, te leva um livro, nunca quer que lhe digas a verdade.

Quer que lhe diga que é fantástico.

Se lhe dizes a verdade, não gosta. Aprendi isso há muito tempo. Não, já não dou conselhos, nunca. Não quero. Porque se lhes dizes a verdade, vão ficar ofendidos e não vão aprender. E se mentes estás a ser desonesto. E também nunca deves dar um romance a ler àqueles que gostam de ti: a tua mulher, o teu amigo. Porque também nunca te vão dizer a verdade.

Então a quem dá a ler os seus livros?

A ninguém, aos editores. Escrevo romances há 35 anos, não preciso que me digam nada.

Imagino que a vida do escritor envolva muitas outras coisas. Reuniões, negociações com os editores, promoção dos novos livros… Escrever é apenas a parte mais agradável?

Não. Eu odeio escrever. Odeio, não gosto. Escrever é um processo mecânico, aborrecido, esgotante. É um trabalho de rotina. O que eu gosto é de imaginar. Os meus romances têm duas fases: primeiro, a fase da preparação e depois a fase da escrita. A fase de preparação é magnífica, é como estares apaixonado. Durante um ano, um ano e meio lês, viajas, observas, tomas notas... Esta rapariga que passou, aquela música, a paisagem, as cores do lugar... O meu último romance, que vou apresentar para a semana, decorre na Grécia. Estive na Grécia a trabalhar numa ilha, a ver. Essa é a parte maravilhosa, como apaixonares-te. Mas depois é preciso escrever, e essa é a parte de que já não gosto, a parte mecânica, do dia-a-dia. Mas também é necessária para justificar a fase anterior. Se um dia inventarem um aparelho que enfias no ouvido e sai o texto escrito no computador, ficarei muito contente, porque não gosto nada dessa parte.

Então não acredita na inspiração…

Acredito. Mas acredito sobretudo no trabalho. A inspiração é um momento, o trabalho é contínuo. Os meus romances não se escrevem com inspiração, escrevem-se com trabalho. A inspiração pode ser uma história, uma personagem, uma cena que te ocorre. Mas depois é preciso um trabalho organizado, sistemático. Todos os dias trabalho entre seis e oito horas. Mesmo que tenha problemas, que esteja doente, que me doa alguma coisa ou que tenha morrido o meu pai, todos os dias trabalho. Porque é o trabalho que permite que a inspiração produza resultados interessantes.

Porque se estamos à espera que a inspiração chegue…

Há dias em que não estou com ganas de trabalhar. Se calhar também há dias em que não te apetece trabalhar. Mas sento-me à secretária e no final há sempre qualquer coisa que se aproveita. Se dizes "hoje não estou a conseguir", e tal, começas a deixar de trabalhar e vais-te perder.

Faz muitos apontamentos para usar mais tarde? Por exemplo, está ali um gordo sentado que pode ser interessante para uma cena qualquer num hotel.

Sim, pego num guardanapo, tiro a caneta e tomo nota. Os meus bolsos estão sempre cheios de apontamentos, tenho cadernos por todo o lado, tomo notas até nos sacos para vomitar dos aviões. Foi sempre assim, quando era repórter e agora que sou romancista. Sou um romancista feliz. Não sofro quando estou a trabalhar num romance. Há romancistas meus amigos que se queixam da escrita, da dor criativa, da angústia da página em branco… Se não gostas muda de profissão, não escrevas, dedica-te a outra coisa que te faça feliz. Escrever faz-me muito feliz. Deito-me à noite a pensar que vou escrever a cena tal. Adormeço a pensar nisso, como quando era miúdo a pensar nos Reis Magos [que, segundo a tradição, levam os presentes de Natal]. Levanto-me sem dizer nada, sento-me ao computador, taca, taca, taca, taca, taca. Uma página e meia. Duas páginas. Muito bem. Imprimo em papel. Risco, corrijo, rescrevo. É como um caçador que mete tudo no saco. Não sei se vou aproveitar aquele gordo ou se o deito fora. Ou aquela mulher bonita que está a sorrir. O romance de que falei, 'O tango da Velha Guarda', começou com um apontamento. Estou em Buenos Aires isto passou-se há 25 anos no bar de um hotel muito elegante. E há um rapaz e uma rapariga que estão a dançar o tango. E quando essa dança termina, o bailarino vai buscar uma senhora do público, uma senhora elegante, bonita, madura. E tomei nota: "Senhora a dançar o tango". O romance parte daquela cena. Como nunca sei o que vai ser útil, vou tirando apontamentos e guardo tudo.

Viaja muito?

Sim, viajo. Publico em 40 países, mas já não vou a todos. Agora só vou onde estiveram os romanos: França, Itália, Portugal… E vou muito ao México e à Argentina. E depois viajo para trabalhar nos meus romances. Tenho 73 anos, viajar, chegar a um sítio novo, ou mesmo conhecido, andar na rua, estar sozinho a pensar, tudo isso me ajuda a ser criativo e mantém-me em forma. Além disso, tenho um veleiro e passo muito tempo no mar. A minha outra vida é o mar. Quando estou cansado das viagens e dos romances vou navegar durante um mês. Vou à Sicília, à Sardenha ou à Grécia. Navego, leio e depois volto e continuo a trabalhar.

E não é arriscado?

O quê?

Andar no veleiro. Ainda há pouco tempo naufragou um na Sicília.

Claro que é arriscado. E a vida? Atravessar a estrada também é arriscado. Estar aqui com estes filhos da puta à nossa volta também é arriscado, porque te faz perder a fé na humanidade. Tudo é arriscado. A vida está cheia de riscos. O mar, claro, mas também podes escorregar e cair na banheira. Na guerra dispararam e não me acertaram. Alguma vez terá de ser. Vocês portugueses são atlânticos, marinheiros tristes. Eu sou mediterrânico. O mar é luminoso, azul, cheio de história, de memória, e navegar no Mediterrâneo é para mim uma necessidade e uma bênção.

https://sol.sapo.pt/2024/10/09/arturo-perez-reverte-o-ser-humano-e-bom-e-mau-ao-mesmo-tempo-pode-se-ser-heroi-de-manha-e-violador-a-tarde/

24 septiembre 2024

"Lisboa é um parque temático para turistas analfabetos"

Entrevista de Ricardo Alexandre - tsf.pt - 24/09/2024

Arturo Perez-Reverte é dos mais lidos escritores de língua espanhola. Foi repórter de guerra mais de 20 anos. Foi ao México e escreveu sobre a Revolução de 1911, mas principalmente sobre os meandros da mente humana. Na TSF, o iberista desassombrado fala sobre como o turismo tornou Lisboa aterradora.

Comecemos pelo protagonista, Martín Garret Ortiz, um engenheiro de minas que se vê envolvido na recolução mexicana do início do século XX… A forma como o descreves, o relato das suas sensações interiores, o modo como se vai habituando às atrocidades à sua volta é a prova de que a guerra muda sempre, como que inevitavelmente, uma pessoa?

A guerra muda as pessoas, a mim mudou-me, 21 anos de guerra mudaram-me, essa é a realidade. A aprendizagem de Martín Garrett é a de mim mesmo. Eu uso a minha própria experiência para fornecê-la e ele. É um jovem, com pouca experiência e a violência, a revolução, a morte, tudo, o sexo, a lealdade, amizade, solidão, fracasso, tudo isso o transforma; dão-lhe maturidade, tornam-no em alguém maduro, em alguém preenchido. É um romance de aprendizagem, de formação, não é a guerra da revolução, mas a dos seres humanos nessas circunstâncias. O que me fascinou na guerra não foi a guerra em si. A guerra é horrorosa, mas como as pessoas se comportavam na guerra, na guerra é possível encontrar ações com sentido humano. E isso é o Martin. Garrett descobre.

Por isso escreve que é um livro sobre a assombrosa descoberta das regras ocultas que determinam o amor, a lealdade, a morte, a vida…

Exatamente, exatamente. Ou seja, acredito que o ser humano, até que se veja em situações extremas, não chega ao fundo. Não estou a falar de guerra, estou falando da vida, de um polícia, de um hospital, o que é a doença, a dor, o fracasso, qualquer situação extrema faz o homem ir além do imediato, não? O homem precisa, para a sua aprendizagem total, de tocar o fundo das coisas, não porque a revolução, a guerra, seja uma bom lugar, é um lugar adequado para manifestar isso.

O livro nasceu com base numa história real, que ouvias em casa sobre um amigo do teu bisavô… ou seja, um outro Martín Garret existiu mesmo?

Não é assim exatamente. O meu avô era engenheiro de minas e um colega e amigo dele foi para o México e esteve na Revolução Mexicana. Ele não combateu, mas viveu isso muito de perto, e as cartas dele para o meu bisavô estavam em casa dele, eu li-as, estavam lá. Ele contou coisas sobre Pancho Villa. Então, achei uma boa ideia usá-lo como personagem base para criar o meu próprio personagem.

Então isso significa aproximar a ficção da tua própria biografia?

Bom, todo escritor, pelo menos o tipo de escritor que eu sou, ele é aquilo que mais viveu, aquilo que mais lê, o que a biografia imagina. Para mim é fundamental. Quando os meus romances falam de violência, de morte, isso não aprendi nos filmes, nem aprendi no balcão de um bar a beber ou a falar sobre ser humano. Aprendi observando, vendo pessoas a matar, a lutar e a morrer. Portanto, há uma parte biográfica importante. Não a utilizo como material direto, mas utilizo-a como base narrativa. Quando tenho que contar essas coisas, recorro às minhas próprias memórias.

Ou seja, nunca e jamais, sai de ti o repórter de guerra?

Claro. É como quando foste padre ou prostituta, isso marca o caráter,  nunca se pode esquecer, tens isso sempre contigo. Há muitos anos deixei o jornalismo e o meu trabalho é outro, mas ainda tenho as reflexões antigas, o olhar que aquela vida me deixou. A vida de repórter de guerra, deixou-me um olhar com o qual faço um romance, com o qual vejo o mundo, com o qual eduquei a minha filha, com o qual navego, com o qual falo com os meus amigos, com o qual me sento para falar contigo. Isso marcou-me. E isso, para o bem e para o mal, é o meu capital, a minha biografia.

O romance histórico com aventura é o género, é o estilo que mais te estimula como escritor?

Nem todos os meus romances são históricos, mas é verdade que os romances históricos, que neste domínio da aventura me interessam muito, têm muitas possibilidades, porque eu não faço propriamente romances históricos, quando os faço é a pensar no presente. Tento explicar o presente com mecanismos narrativos do passado, com acontecimentos do passado. Portanto, na realidade, os meus romances falam sempre do ser humano que, bem… é intemporal, quer seja em Roma, quer seja na Europa do ano 2025.

É uma revolução muito anterior aos movimentos de emancipação das mulheres, mas não deixa de ser um livro onde várias mulheres assumem um papel relevante, desde a jornalista Diana Palmer à mulher do major Garza, Maclovia Ángeles…

Em todos os meus romances há personagens femininas muito poderosas, em todos eles. Aqui há três: a guerrilheira soldado humilde e analfabeto, a rapariga da boa sociedade e a jornalista. Para mim, a personagem mais interessante dos romances mexicanos é sempre a mulher, porque já tudo foi escrito sobre os homens, escrevemos tudo sobre os homens durante muitos séculos, desde Homero até agora. O homem é espremido como um limão na paella. Mas agora há ângulos para ver a mulher que não havia antes. Há diferentes visões da mulher, novas, digamos, o herói moderno por excelência é a mulher. Bem… não sei, eu tenho consciência disso, porque na vida que levei vi muitas mulheres a atuar, não como elementos passivos, mas como actores, como protagonistas. Por isso, elas estão sempre presentes nos meus romances. E neste, quis que o México que queria contar, a mulher que queria contar, estivesse presente e estas personagens permitem-me fazer isso. Desenvolver uma mulher que luta sozinha num mundo de homens, debaixo de um céu sem deuses, com as regras dos homens. É uma luta muito interessante, muito, muito interessante.

E estas duas personagens que citei, Diana Palmer e Maclovías, são mulheres muito, muito fortes, muito determinadas, muito, muito assertivas.

Também a rapariga da boa sociedade, a terceira. O que acontece é que ela usa outras armas, é uma rapariga muito bonita, da boa sociedade. Por isso, a sua luta é diferente. Ela não quer mudar o México e não quer informar o mundo, quer sobreviver e para sobreviver quer um bom casamento com alguém com dinheiro, uma vida estável, um estatuto social. Por outras palavras, todos eles. Por outras palavras, ela também quer. Ou seja, há também algo de heroína neste tipo de mulher. Quer dizer, a mulher que quer isso também tem uma luz, está a travar uma luta, não é? E isso é interessante. Portanto, é por isso que há três formas diferentes de luta por parte das mulheres.

Foste a Ciudad Juárez para escrever o livro?

Bem, eu conheço muito bem o México, já estive em todo o lado muitas vezes.

Bem, hábitos de um antigo repórter de guerra, certamente….

Não, não é, é que a parte divertida… olha, eu odeio escrever! Sentar-me para escrever, a parte mecânica do texto… Não gosto nada disso. É como ir à escola quando eu era miúdo, não queria ir.

Mas tu és um homem de rotina, dizes de ti próprio que escreves como um trabalho normal de 8 horas por dia…

Porque é o meu trabalho. No meu trabalho, sou pago para isso, é o meu trabalho e faço-o o melhor que posso, mas o que eu gosto é de imaginar o romance. Eu gosto da fase anterior, de viajar para os sítios para tomar notas, ler livros, olhar para as coisas e situações, andar a esta luz, aquela luz daquela cor. Agora o meu romance, o meu último romance, passa-se no Mar Egeu, estou a viver na Grécia há algum tempo para o poder escrever, vai sair no próximo mês e quero dizer que esta é a parte mais bonita, é como quando te apaixonas, é quando ainda não sabes o que vais escrever. É tudo, é descobrir, aprender coisas. É uma fase excitante. Depois vem a parte rotineira da escrita. A correcção, que é detestável. Olha, se um dia houvesse um aparelho que se ligasse ao ouvido e desse saída ao romance escrito no computador eu comprava-o, porque o facto de ser escrito não me agrada nada, mas teria de  comprar o aparelho, porque não gosto do facto de ter de escrever, não gosto nada. Mas tenho de o fazer para justificar a melhor fase, que é a primeira.

Voltemos à Ciudad Juárez, como é que a vês?

A Ciudad Juárez de hoje não tem nada a ver com a do meu romance. A Juárez de 1911 ou 1921 não tem nada a ver com a Juárez de agora que é um lugar diferente, sinistro, muito complicado, nas mãos das máfias, onde as mulheres desaparecem, agora é um lugar triste e perigoso.

Isto foi o que pensei quando comecei a ler o livro, pensei: Cuidad Juarez teve esses episódios importantes da Revolução Mexicana, mais recentemente uma guerra do narcotráfico e que até hoje subsiste, já foi considerada a cidade mais perigosa do mundo. E agora tens os tempos modernos, com uma outra guerra, que é a guerra da imigração, que pergunto é algo que o estimula a escrever, o tema da imigração e dos movimentos humanos?

Não, isso eu não faço, mas há uma coisa que me preocupa. Fui educado para uma Europa com 3000 anos de memória cultural. Uma Europa feita por Homero, Dante, Virgílio, Cervantes, Eça de Queirós, Voltaire, Rousseau do Iluminismo das ideias, uma Europa que era uma referência moral no mundo, digamos que em termos de direitos humanos e liberdades do ser humano e essa Europa está a desaparecer. Essa Europa está a ser destruída por uma série de coisas complexas, a emigração em massa, os movimentos de ultra-direita que são em grande parte causados por ela. O turismo de massas que está a destruir e a devastar a Europa. Lisboa é um exemplo. Ontem, em Lisboa, dei um passeio do hotel (na Avenida da Liberdade) até ao Martinho de Arcada e fiquei aterrorizado. Há dois anos que não vinha a Lisboa. É terrível. Lisboa desapareceu, é agora um parque temático para turistas analfabetos que não conhecem Lisboa e não querem conhecer Lisboa. Tiram uma fotografia, uma selfie, e pronto, já está. Ninguém conhece a cultura portuguesa e ninguém quer saber. E estão a destruir a cidade, como destruíram Madrid e destruíram Paris e destruíram Roma e Florença. Bem, é um fenómeno internacional, mas eu esperava que Lisboa, antiga e imponente, sobrevivesse um pouco melhor, mas não, Lisboa também caiu. É muito bom para o comércio, para os taxistas, tudo isso é muito bom. Mas a Lisboa bonita, elegante e maravilhosa está morta. Está morta, não a reconheço.

É a mesma coisa, provavelmente a um nível muito mais intenso em Barcelona e em Barcelona, por exemplo, está a começar quase como que um movimento de resistência dos locais, dos autóctones ao turismo. Isso pode acontecer em todo o lado, não pode?

Não há solução. Não há como o parar. Isto é economia. É um ciclo económico. O turismo é um fator económico muito importante. Há muita gente que depende do turismo e isso não vai mudar, ninguém o vai parar, ou seja, a Europa que eu vi, que eu vivi, em que eu nasci, em que eu fui educado, morreu. Ainda bem, digo-o sem dramatismos, digo-o objetivamente de uma forma equânime, é assim: a minha sorte é que eu vivi essa Europa, nasci em 1951, eu vivi essa Lisboa, essa Paris, essa Roma, essa Madrid, essa Sevilha. Já não existem. Portanto, bom, eu tenho esse capital intelectual na minha cabeça, não, e há a biblioteca, claro, mas o mundo de hoje já não é isso, essa Europa está morta, morta. Agora a Europa, são quatro filhos da puta que estão em Bruxelas a ver como põem as tampas ecológicas em vez de legislarem. São mesmo! É isso que a Europa é agora? Não, não faz sentido. Onde estão eles? Os Churchill, Adenauer, De Gaulle, papa Paulo VI, João XXIII? O Krutchev da União Soviética? Não, não estão. Acabou-se, acabou-se, acabou-se.

Voltando à guerra… A guerra destrói, mata, provoca dor e sofrimento, seja em África, na América Latina, Balcãs, no Médio Oriente ou na Ucrânia… mas a guerra pode também ser uma espécie de escola de vida?

É mesmo escola da vida, quer dizer, a guerra é horrível. Mas aprendemos coisas na guerra que nunca aprenderemos na vida. Numa semana de guerra aprende-se mais do que em 10 anos de vida, não é? E à guerra devo a lucidez, as ideias, o conhecimento. A guerra é terrível, obviamente, mas gera uma série de comportamentos diferentes que são impossíveis aqui, não? Aqui o ser humano em paz está rodeado de um monte de verniz, de dissimulação, de factores sociais que o impedem de ser o verdadeiro ser humano. A guerra salta por cima de tudo isso e a soma é o que é, no bom e no mau. Então, vê o ser humano na guerra: carrasco e vítima, grande e miserável, o cruel e o terno e o compassivo e, por vezes, na mesma pessoa. Em alturas diferentes, uma pessoa pode ser tudo isso. Portanto, a guerra é uma extraordinária escola de lucidez. Para mim, foi uma escola de aprendizagem. Paradoxalmente, aprendi mais na guerra do que na paz, tal como aprendi mais com os maus do que com os bons. Com um bom aprende-se a bondade; com um mau, aprende-se uma série de coisas. Agora, há quem defenda o cancelamento e coisas do género. Aparece um Hitler e diz-se para ele não falar, vá-se embora. Penso que não, é o contrário: senta-lo, fá-lo falar, aprender com o mal: como é que conseguiu matar milhões de Judeus, filho da puta? Como é que conseguiu que o parlamento o fizesse? Diga-me e depois matem-no, executem-no, enforquem-no. Conta-me e depois matam-no, executam-no, enforcam-no, mas primeiro ouvem-no porque aprendem muito com o mal, isso é outra coisa que aprendi com a guerra.

—'Linha da frente', sobre a Guerra Civil de Espanha, ou este 'Revolução' poderiam ser transformados em filmes de cinema, não? Há planos para isso?

A 'Linha da frente' não, não houve acordo. A revolução, os mexicanos estão a fazer uma série sobre o meu livro 'Revolução'.

Já está a ser transmitida agora?

Não, ainda não. Está na fase do guião.

Na fase do guião. Bem, já falámos de rotina, de trabalho. É para si então como profissão, 8 horas por dia?

Todos os dias, Levanto-me de manhã, nado, tomo banho, trabalho 8 horas, 7 horas, nos dias maus 6. E quando não consigo ver mais aquilo, vou velejar. Navego num veleiro que tenho no Mediterrâneo, volto e continuo a trabalhar e assim por diante e tenho um romance lançado quase todos os anos. Agora vai sair um novo dentro de uma ou duas semanas, vai sair um romance novo em Espanha.

Como se chama?

—'A Ilha da Mulher Adormecida'.

E é sobre…?

No Mar Egeu em 1937, uma história triangular, um marinheiro espanhol, uma mulher e o seu marido que é um aristocrata grego nas ilhas gregas, uma história de amor, de guerra, de aventura, de… mais do que amor, de sexo. E estou a levar jornalistas comigo agora para a Grécia e vou apresentar o romance lá e por aí fora.

Continua a pensar que uma Ibéria unida seria uma grande potência face a uma Europa que olha de soslaio para o Sul?

Absolutamente. Penso que em Espanha e Portugal deveria haver um Ministério dos Assuntos Ibéricos, dois ministros dedicados a entender-se, a negociar, a fazer coisas em conjunto. Não percebo porque não o fazem, não é assim tão difícil, há ministérios em Espanha de tudo, ou seja, os ministérios mais ridículos e mais absurdos, nós temo-los. Bem, um Ministério dos Assuntos Ibéricos, com Ministros Ibéricos dedicados a reforçar os laços culturais, sociais e políticos, a votar sempre juntos na Europa, a procurar interesses comuns, para que a fronteira não exista de facto, é isso que devia haver. Se formos sérios, temos a mesma história, se viemos do mesmo sítio, fomos igualmente maltratados por um ou por outro. Sofremos ditaduras, passámos pela miséria, entendemo-nos bem, conhecemo-nos muito bem, sobretudo os portugueses conhecem os espanhóis; os espanhóis sempre viraram as costas a Portugal. Por outras palavras, sou um iberista convicto, sei que é impossível porque o mundo é um lugar estúpido, o mundo é estúpido. Espanha e Portugal são estúpidos e não conseguem ver. Mas devia haver um Ministério dos Assuntos Ibéricos. Já imaginaram como seria bom, fazer coisas em conjunto? Votar em conjunto na Eurovisão, sei lá? Não sei, não seria tão bonito se a fronteira de Portugal acabasse no Mediterrâneo e a de Espanha no Atlântico? Seria bonito.

https://www.tsf.pt/1595329492/lisboa-e-um-parque-tematico-para-turistas-analfabetos-deviamos-ter-ministerios-de-assuntos-ibericos-mas-portugal-e-espanha-sao-estupidos/