Entrevista de Maria João Costa - rr.pt - 25/09/2026
O escritor espanhol está a lançar em Portugal o livro 'Missão em Paris'. Arturo Pérez-Reverte regressa à sua personagem icónica, 14 anos depois. Questionado sobre a crise migratória em Ceuta, o autor diz que têm faltado políticos à altura e que os migrantes que chegam veem as suas expetativas defraudadas.
Arturo Pérez-Reverte tem 74 anos. Confessa-se mais amargo e pessimista quando ao atual estado do mundo. Esses sentimentos contaminaram uma das suas personagens mais icónicas, o Capitão Diego Alatriste que regressa aos livros, 14 anos depois em 'Missão em Paris' (ed. Asa).
De passagem por Lisboa, em entrevista ao programa 'Ensaio Geral', da Renascença, o escritor conta que desta vez o seu personagem cruza-se nas páginas do livro com os 'Três Mosqueteiros'. Ele que sempre foi um admirador da obra de Alexandre Dumas sentia que queria confrontar essa “França elegante” com a “Espanha rude, com os seus soldados do campo de batalha”.
Questionado sobre a atual crise migratória em Ceuta, Pérez-Reverte evita falar sobre o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, mas acaba por admitir que “aproximam-se tempos muito difíceis e duros para a Europa” e que não crê que “os políticos atuais estejam à altura do desafio”.
—Começo por lhe perguntar como está o seu velho amigo Diego Alatriste? Como o encontraremos neste romance?
—Bem, encontrá-lo-ão mais amargo e mais lúcido. A idade tira o otimismo e traz a certeza. E a certeza nunca é agradável. Por isso, está mais lúcido e mais amargo, tal como o autor! Não fiquei mais triste com a vida, mas é certo que a idade rouba a inocência, os sonhos e, acima de tudo, rouba a esperança. Quando somos jovens, esperamos que o mundo mude para melhor. Quando ficamos mais velhos, percebemos que o mundo não vai mudar. E se mudar, nunca será para melhor. O Alatriste beneficia ou é prejudicado por isso, como personagem. É afetado pela perspetiva do autor. Neste momento da minha vida, a minha visão do mundo nem sempre é otimista. Alatriste traduz esta perspetiva.
—Mas foi o Capitão Alatriste que lhe pediu de voltar aos livros?
—Queria saber se era capaz. O Alatriste tem um culto de seguidores fanáticos, até alguns ministros do atual governo, são grandes fãs de Alatriste. Passaram 14 anos, havia outros romances que queria escrever e ainda quero escrevê-los. Mas perguntei-me: “Será que vou conseguir recuperar aquele território, aquelas personagens, aquela documentação?” E havia ainda outra questão pendente que eram 'Os Três Mosqueteiros', do livro de Alexandre Dumas, que andava na minha cabeça desde a infância. Eu queria colocar o Alatriste frente aos Mosqueteiros.
—Como é esse encontro?
—Era juntar aquela França elegante, com o seu estilo de salão, ao lado daquela Espanha árida, suja e repleta de trincheiras. Questionei-me se seria capaz e comecei a escreve, e aqui está. Queria contrastar aquela França mais refinada, elegante, onde os espadachins faziam duelos em salões, com boa postura, onde o prestígio social era importante, com aquela outra Espanha, rude, austera, com os seus soldados do campo de batalha. Então, é por isso que o duelo entre o Atos e Alatriste é assim. O Atos luta ao estilo francês e Alatriste luta ao estilo espanhol. Dizem que quanto mais suja é a luta, mais duro é o lutador, certo? E Atos diz que este tipo luta à espanhola, não é de nenhum cavalheiro. E para Alatriste, a espada não é uma ferramenta elegante, é um instrumento para ganhar a vida.
—E nesse confronto entre Espanha e França, Portugal também está envolvido porque na altura estava sob domínio espanhol?
—Sim, isso durou 60 anos. Nessa altura, Portugal também fazia parte da Espanha, ou Espanha também era Portugal. E isto leva-me a algo que já disse antes e sublinho. O grande erro de Espanha, de Filipe II, de Filipe IV, foi não esquecer a Europa das guerras religiosas, onde perdemos tanto dinheiro e tantas vidas, e ter transferido a capital de Madrid para Lisboa. Poderia ter criado uma grande capital de um império atlântico e ultramarino. Isso teria nos dado uma enorme força. Ter-nos-ia tornado a todos mais poderosos, mais ricos e melhores em tudo. Mas não a monarquia sabia como, era cega. Não sabia como agradar à nobreza portuguesa. O rei não sabia como se fazer amado. Para ele, Portugal era algo distante e herdado. Não levou isto a sério, e isso foi um erro. O maior erro de Espanha.
—Continua a defender uma solução ibérica?
—Falava muito sobre isso com o Pepe [José] Saramago, que era um grande amigo meu, como sabe. Ele era um iberista convicto, como eu. Foi um grande erro. Consegue imaginar Lisboa como capital do Império Espanhol? Como teria mudado a história do mundo?
—Acredita nesta era em que a honra perdeu terreno, perdeu o seu valor, é importante lermos histórias como esta, onde a honra tem ainda grande protagonismo?
—Quando eu era jovem, fui educado a acreditar em muitas coisas: Deus, honra, pátria, bandeira, lealdade, amor eterno, todas coisas em que todos nós acreditamos. Depois, a vida tirou-me gradualmente muitas dessas palavras, deixando-me com muito poucas, como a dignidade, a coragem e a honra, mas é a honra entendida como lealdade. O Alatriste, que perdeu todas estas coisas como o seu autor, mata por dinheiro, é um soldado com remorsos, que certa vez desfigurou o rosto de uma mulher, com um passado duro e obscuro e conserva aquelas duas ou três palavras que o seu autor também conserva. É leal aos seus amigos e à sua maneira de compreender o mundo. Isso faz dele um herói muito moderno. Os heróis clássicos da antiguidade eram heróis de coração, heróis puros de bons sentimentos. O herói moderno é um herói sombrio, porque é consciente e lúcido.
—Vemos, contudo, nesta história que as mulheres mudam sempre tudo. Interferem com os heróis?
—Gosto de mulheres perigosas. Gosto de mulheres que mudam a vida dos homens. Desde criança, devido à minha educação e ao que li, nunca entendi as mulheres como submissas aos homens, como meros complementos. Compreendi-as de outra forma, como estímulo, como juízas, como testemunha, como inquisidoras e como um castigo para os homens. Nos meus romances, as mulheres são como são na minha vida. Tentei que fossem mulheres duras que te fazem dormir descansado, sabendo que te estão a observar com uma espingarda na mão. Mulheres cujo ódio, cuja inimizade, cujo ressentimento podem ser mortais. Suponho que seja porque, tendo lido sobre os Mosqueteiros, li sobre a Milady, a personagem dos Mosqueteiros, e este tipo de mulher marcou-me. Toda a minha vida procurei Miladys em todo o lado. Todas as mulheres da minha vida foram Miladys de uma forma ou de outra. A mulher submissa, a mulher obediente, nunca me interessou. Fui educado num mundo que exigia este tipo de mulheres, mas eu não queria este tipo de mulheres. O que eu quero são mulheres perigosas, mulheres em quem não se pode confiar, mulheres que nos possam apunhalar pelas costas, com quem tenhamos de dormir com um olho aberto, que possam estar à procura de veneno ou de uma faca para nos esfaquear. Este tipo de mundo que existe na minha vida real também está presente nos meus romances.
—Neste romance, assim como noutros da série Alatriste, tem um estilo de escrita diferente dos seus outros livros. Gosta de escrever com este tom, com este ritmo?
—A tradução que fizeram em Portugal é magnífica. É muito boa, é uma tradução muito cuidada e bem conseguida. Estou muito feliz porque, nas aventuras de Alatriste, a linguagem é muito importante. Se tivesse escrito um romance usando a linguagem da época, teria sido um romance arcaico. Teria de ter um tom intermédio que, embora moderno, respeitasse a essência da literatura clássica, a grandeza do teatro e o Século de Ouro espanhol. Assim, procurei essa linguagem intermédia que o tornasse eficaz, que fizesse o leitor acreditar realmente no que estava a ler. E, para minha agradável surpresa, as traduções para português, e esta em particular, são magníficas. Não é o meu tradutor habitual. É muito respeitador e muito cuidadoso. É um tradutor que escolheram pela sua elegância no domínio da linguagem, com um toque clássico.
—Há também uma parte importante no livro que são as ilustrações, que acrescentam algo mais à história?
—Claro. Eu cresci numa biblioteca que pertencia aos meus bisavós, onde havia antigos romances como os de Alexandre Dumas. Todos eles eram encadernados com ilustrações, como revistas antigas. Queria dar a esta série aquele ar de saga clássica, à moda antiga e pedi ilustrações. Por isso, digamos que tem um pouco daquela atmosfera dos grandes romances clássicos de série, aos quais gosto de pensar que este romance é uma péssima homenagem.
—Como estão as coisas na sua Espanha neste momento, com a crise migratória em Ceuta?
—A Espanha faz parte da Europa. A Europa é um continente em declínio. Quer dizer, Platão, Aristóteles, Cervantes, Camões, Queiroz, um a um, foram condenados à “morte”. A ignorância, a estupidez e o atual clima político estão a destruir tudo. Aquele Ocidente, aquela Europa que iluminou o mundo, que foi imitada até pelos seus inimigos e que moldou tão profundamente a história da humanidade para o bem e para o mal, está a desaparecer, está a ruir. O mais grave é que os bárbaros não estão a vir de fora. Dizem que são os mouros? Não são. Os turcos e os seus simpatizantes? Os russos? Não, não, não. Somos nós, os europeus, os espanhóis, os portugueses, os franceses, os italianos, os alemães, estamos a ser os próprios bárbaros. A falta de cultura, a ignorância, o desinteresse pela história está a provocar, a destruir e a desmantelar o conceito de civilização ocidental, que era muito importante. Mas é claro que, para ser um cidadão moderno, educado, democrático e culto, são necessários anos de escolaridade, educação familiar e leitura de livros sobre cultura. Para ser um fanático estúpido, bastam cinco minutos nas redes sociais. As pessoas acham mais fácil clicar nas redes sociais. Eu já faço parte disso, já disse que gosto, faço parte desse movimento. Mas depois, claro, este declínio intelectual é muito notório. Cada vez mais! Uma Europa, uma Espanha, um Portugal, que ignoram a sua História e os mecanismos culturais que os moldaram, não conseguem interpretar o presente. Quando surgem problemas como Ceuta, ou seja o que for, uma revolução ou um ato terrorista, os cidadãos veem-se indefesos, incapazes de compreender porque é que lhes retirámos os mecanismos que lhes permitiam compreender. Isto deixa os europeus indefesos contra o mundo que aí vem, e isso é muito perigoso. Para ser sincero, sou muito pessimista. Tenho 75 anos. Talvez uma pessoa mais nova seja mais otimista. Na minha idade gostaria de ser otimista, mas não acredito que as coisas vão melhorar.
—Como vê o futuro, então?
—É curioso porque nem sempre há uma solução. A História desenrola-se, acontece, há ciclos, os impérios ascendem e caem. O Ocidente está em declínio, está a cair. Não há solução. O mecanismo é a compreensão. Quando não se compreende, permanece-se... mas quando se compreende, pelo menos tem-se a clareza para saber porque é que as coisas acontecem. Por isso, que se lixe, vamos explicar às pessoas porque é que as coisas acontecem, que não existe uma única solução, que existem diferentes formas de encarar os fins. Vamos educar-nos para encarar o fim com dignidade, com honra, com coerência e estoicismo. Não há um mundo ideal.
—Sim, mas é à procura de um ideal que os migrantes chegam à Europa. É o que acontece com aqueles que entraram de Marrocos em Ceuta. Estão errados?
—Sonham com uma Europa que já não existe. A Europa que eles procuram, essa Europa ideal, já não existe como tal; o que existe agora é uma caricatura dessa Europa. Chegam a uma Europa que já não é o que imaginavam. Acreditam que a Europa é um lugar onde todos vivem bem, todos têm um carro, e isso não é verdade, já não é assim. Isso representa um perigo. Quando se chega com expectativas e estas não são correspondidas, isso gera ressentimento. Assim, aqueles que vêm para a Europa e não encontram aquilo que procuram, voltam-se contra essa Europa e contribuem também para a sua destruição. A frustração da desilusão é também muito perigosa, gera ressentimento e uma agitação social muito perigosa. Avizinham-se tempos muito difíceis para a Europa, e não creio que os políticos acuais estejam à altura do desafio.
—Nem o Pedro Sánchez?
—Não quero falar de Pedro Sánchez. Mas há outra questão. Há uma ou duas gerações, os políticos entravam na política com uma formação académica sólida. Eram juristas, economistas, historiadores, filósofos; tinham uma formação prévia que lhes dava peso intelectual. Agora, os políticos vêm dos partidos; são as alas jovens de partidos, portanto, já estão num partido desde os 18 anos, não conhecem o mundo e nunca trabalharam. O distanciamento da realidade é enorme. Existe uma separação entre a política e a realidade. Isto está a criar uma espécie de política autónoma e independente, dissociada da política do mundo real. Isso é ainda mais perigoso, e é por isso que sou tão pessimista.
https://rr.pt/especial/vida/2026/09/25/perez-reverte-nao-creio-que-os-politicos-atuais-estejam-a-altura-dos-tempos-dificeis-da-europa/486823/
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